quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Santa hipocrisia, Batman!

Todo mundo que já passou dos 40, como eu, lembra dos enlatados americanos que nos eram empurrados goela abaixo pela televisão brasileira nos anos 70. Eram produções dos anos 50 e 60 que só estavam chegando aqui com mais de uma década de atraso, como Terra de Gigantes, Geannie é um gênio, A Feiticeira, Túnel do Tempo, Viagem ao Fundo do Mar e outros.

Entre esses havia um seriado com histórias de Batman e Robin, que era marcado pelo inusitado fato de que todos os socos trocados entre a dupla e os bandidos eram acompanhados de balões com onomatopéias, como "pum!", "pof!", "soc!" e outras coisas semelhantes.

Outro fato curioso eram as exclamações de Robin, o "menino prodígio", que quando via qualquer coisa tascava um "Santa qualquer-coisa, Batman!".

Pois hoje, se fosse o Robin, eu bem poderia dizer "Santa hipocrisia, Batman!", pois a hipocrisia parece ser uma das características mais marcantes do ser humano.

Dois domingos atrás a Folha de São Paulo publicou uma extensa matéria sobre o "abate humanitário". Os consumidores de carne da Europa estão exigindo que o Brasil se adeque aos parâmetros de respeito aos animais para poderem consumir a carne brasileira, e por isso os abatedouros estão ministrando para os seus funcionários cursos sobre o tal "abate humanitário", que consiste basicamente em dar choques elétricos fortes nos porcos, vacas e galinhas antes de matá-los, para que eles estejam inconscientes ao serem mortos e assim não sofram.

Santa hipocrisia, Batman!

Se as pessoas se preocupam realmente com o bem-estar dos animais, por que razão não fazem como os vegans e deixam de consumir alimentos de origem animal? Se todos adotassem essa posição, não seria necessário abater animais e essa sim seria uma posição real contra o sofrimento dos bichos.

Acontece, porém, que a hipocrisia humana não funciona assim. Os seres humanos não estão nem aí, na realidade, para os sentimentos dos animais. O que preocupa a eles é o seu próprio sentimento. Eles não querem sentir nenhuma culpa com relação ao abate de animais, mas querem continuar comendo a carne deles, por isso inventam conceitos idiotas como esse do "abate humanitário", que para mim parece mais uma tortura seguida de morte, pois se trata de dar choques nos bichos antes de matá-los. É algo que o código penal brasileiro classificaria como crime hediondo se fosse praticado contra um ser humano.

Em síntese, o que o "abate humanitário" significa é que os politicamente corretos cidadãos europeus podem refastelar-se com suculentos bifes e costeletas de porco enquanto pensam "Hummm, como essa carne está macia! O pobre animal morreu feliz!"

Essa hipocrisia coletiva é, na verdade, um reflexo da hipocrisia individual.

Tenho uma amiga, uma amiga recente, que é crente. Ela gasta um bom tempo quase todos os dias me dizendo o quanto "deus" quer que eu me converta, que eu aceite "jesus" como meu "salvador pessoal", para que eu possa tornar-me uma pessoa melhor. Entretanto...

Entretanto quando tive a oportunidade de conhecer alguns colegas de faculdade dessa minha amiga, ela me pediu que não contasse para menhum deles que ela é casada! Ela mente para a turma, provavelmente porque se envergonha de ter casado com um cara mais de vinte anos mais velho, do qual agora ela está se separando.

Em resumo, "deus" vai ensinar-me a ser uma pessoa melhor, aprendendo a mentir como ela mente, descaradamente!

Santa hipocrisia, Batman!

Consigo sentir simpatia por qualquer defeito humano, menos pela hipocrisia. Não critico ladrões, assassinos, estupradores, políticos, enfim, não acho absurda nenhuma forma de criminalidade. Mas realmente não suporto a hipocrisia e não consigo conviver bem com ela, razão pela qual quero cada vez menos contato com os seres humanos, tornando-me nos últimos tempos quase que um eremita urbano.

Ainda ontem via um noticiário policial no qual o apresentador, um tal de Datena, reclamava da frieza com que um rapaz confessava o assassinato da namorada. O apresentador dizia: "Ele matou e ainda diz que matou assim, nessa tranquilidade!" Afinal, o que ele esperava? Que o rapaz além de assassino fosse mentiroso?! Que matasse e ficasse dizendo que era um santo imaculado? Se ele matou, tem mais que dizer que matou mesmo! Para mim o assassino ganhou um ponto por não ser hipócrita.

Santa hipocrisia, Batman!

Essa duplicidade humana, tão comum entre os religiosos, é realmente algo irritante. Diga uma coisa, faça outra totalmente diferente. Essa parece ser a regra. Fale sobre o quanto "deus" está te fazendo "santo", depois minta e trapaceie descaradamente. Eu já perdi a conta de quantas vezes tive de cobrar cheques sem fundo emitidos por ilustres membros de igrejas como a Assembléia de Deus. Até mesmo por pastores! Na igreja eles são "santos", "perfeitos", "imaculados", "vasos de honra". Mas as suas vidas privadas assemelham-se mais a vasos sanitários, nos quais fazem todo tipo de merda.

Uma antiga namorada, que era crente, fazia de tudo nas tórridas sessões de sexo em meu apartamento, mas fazia absoluta questão de dissimular suas saídas e chegadas, para que ninguém soubesse. O importante não eram as ações dela, mas sim que essas ações ficassem ocultas.

A hipocrisia que costumo testemunhar por parte da maioria dos religiosos é uma das provas que tenho de que eles são tão ateus quanto eu. Se eles tivessem a certeza de que o seu "deus onipotente, onipresente e onisciente" realmente existia, não teriam coragem de agir com essa duplicidade.

Afinal, de que adiantaria para a minha namorada "santa" esconder que ia para o meu apartamento e transava como uma desesperada, se o "deus" dela está em todos os lugares e vê tudo que se faz? Para quem ela estava mentindo, para os outros ou para si mesma?

De que adianta para essa minha amiga recente falar tanto de "jesus", se anda por aí mentindo para todos, ao mesmo tempo em que diz adorar o homem que (supostamente) falou: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará"?

Os religiosos e os defensores do abate humanitário são pessoas da mesma categoria. Elas acreditam que suas ações não importam. O que importa é a fachada que mantenham de respeitabilidade e bondade.

Se você quer ser bom para os animais, não os coma nem use roupas feitas da pele deles. Se você quer ser bom e puro como "jesus", não ante por aí mentindo e trapaceando. Caso contrário, assuma seu mau caráter e viva feliz como desejar.

Santa hipocrisia, Batman!

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