quinta-feira, 31 de julho de 2008

Políticos

Todos gostam de falar mal dos políticos. Inclusive eu. É uma forma de catarse, uma vingança pelos desmandos, pela opressão, pelo constante saque das riquezas do nosso país.

Há, entretanto, dois fatores que devem ser levados em consideração quando paramos para falar mal dos políticos.

Em primeiro lugar, eles não surgem do nada. Como dizia o falecido pensador e humorista americano George Carlin, os políticos não vêm de outra dimensão e nem são trazidos por naves espaciais. São fruto, sim, das escolhas erradas que fazemos em nossa conivência criminosa com a farsa eleitoral da pseudo-democracia em que vivemos.

A cada eleição, os mesmos cidadãos que ficaram quatro anos criticando as ações de cada um dos níveis da administração pública e do legislativo, dirigem-se às urnas e legitimam com seus votos novos mandatos para homens e mulheres que eles sabem que vão agir da mesma forma que seus antecessores. Isso, é claro, quando não tornam a eleger os mesmos que eles criticaram.

As razões para um tal comportamento são as mais diversas.

Uns alegam que todos são iguais e que, como são obrigados a votar em alguém, votam de qualquer modo. Outros beneficiam-se, direta ou indiretamente, por possuírem cargos controlados por políticos ou apenas através da venda de seus votos em troca de uma ninharia
qualquer.

As razões são muitas e seria impossível tratar de todas aqui, mas todas contribuem para o cenário que vemos. Mas a mais absurda de todas é a seguinte: A mentalidade estúpida do povo brasileiro minimiza os crimes cometidos contra a sociedade.

Permitam que eu explique.

Quando verbas destinadas ao Sistema Único de Saúde são desviadas, o que está acontecendo não é um "esquema". Não é nem mesmo um roubo. O que está acontecendo são múltiplos assassinatos. Cada pessoa que morre nos hospítais públicos por falta de atendimento adequado é uma vítima daqueles que montaram os "esquemas" de desvio de dinheiro da saúde.

Apesar dessas coisas acontecerem todos os dias, continuamos preocupados com as vítimas das balas perdidas e não ligamos nem um pouco para essas outras vítimas. Talvez porque os seus assassinos não moram nos morros, mas em elegantes mansões, e não são chamados de traficantes, mas de políticos, empresários e industriais.

Quando as verbas destinadas à melhoria das estradas são desviadas, o que está acontecendo não é um "arrumadinho", mas sim outra série de assassinatos. Pessoas morrem diariamente em acidentes causados pela falta de sinalização adequada e pela situação ridiculamente precária das nossas estradas.

Se formos procurar, acharemos com certeza outros exemplos onde a manipulação criminosa do dinheiro público ceifa vidas de diversas formas.

A outra coisa que precisamos lembrar quando vamos falar mal dos políticos, é que eles são apenas um ramo da corrupção. São apenas o ramo que cria a justificativa legal para os roubos e assassinatos. São apenas o suporte, a legitimação das atividades legais que espoliam o
povo constantemente.

Por trás dos políticos está o interesse capitalista. Estão os grandes industriais e empresários que se beneficiam das licitações fraudulentas, dos contratos executados fora das especificações, das obras pagas e nunca realizadas.

São os interesses do capitalismo, disfarçados muitas vezes em políticas sociais, que sugam o patrimônio do nosso povo e a riqueza do nosso país.

Claro que essas duas classes muitas vezes se confundem. Muitas vezes os próprios industriais e empresários decidem entrar na arena política, beneficiando-se assim duplamente. Está aí o nosso vice-presidente José Alencar, que não me deixa mentir.

Não dá para esquecer, porém, os que ficam escondidos. PC Farias nunca exerceu cargo eletivo. Nem Marcos Valério, nem "Manuel Português". Mas Collor, FHC, Lula e Orestes Quércia serviram de suporte para que esses ilustres cavalheiros se servissem do dinheiro público, ampliando suas fortunas e seus negócios às custas do país, ou melhor, do povo.

Chega de eufemismos. Temos de passar a chamar os assassinos de assassinos, para ver se assim rompemos psicologicamente com esse esquema de dominação que vem sendo mantido há mais de quinhentos anos.

sábado, 19 de julho de 2008

Eu estava caminhando...

Eu estava caminhando pelo meio da rua...

Sim, é isso mesmo o que você acabou de ler. Como uma forma de protesto pela invasão das calçadas pelos carros, procuro andar bastante pelo meio das ruas, invadindo também o espaço urbano dos motoristas como eles descaradamente fazem como o espaço dos pedestres.

Pois bem, eu estava caminhando pelo meio de uma movimentada rua do bairro da Tijuca quando um motorista gritou "Maluco!" para mim.

Curiosamente, ele provavelmente não se considera maluco quando estaciona o seu carro sobre uma calçada, impedindo que pedestres (entre os quais crianças e pessoas de idade, sem muita agilidade)
exerçam seu direito de ir e vir em segurança sobre as calçadas.

E sabe por que ele não se considera assim? Porque ele pertence àquela privilegiada parte da população que tem carro e que pode circular com seu carro por aí. Julga-se um membro das "classes superiores" e portanto pode invadir qualquer espaço sem ser punido. É um dos "nobres modernos", com direitos feudais e hereditários sobre as vidas de todos os circunstantes. Assim, quando eu invado o espaço dele, a rua, sou maluco e estou ofendendo seus direitos. Mas quando ele invade o meu espaço, a calçada, está apenas exercendo seus poderes naturais.

Se você pensa que vivemos em uma sociedade livre, democrática e igualitária, está muito enganado(a). Vivemos numa sociedade de classes estritamente delimitadas, onde a posse de certos símbolos de status é elemento essencial para distinguir os direitos de cada um.

Nessa sociedade há vários indicadores da posição de cada um. E não estou falando das leis. supostamente elas são feitas para todos. Já foi dito que a lei proíbe igualmente que ricos e pobres durmam debaixo das pontes e roubem pão para matar a fome.

Não, os indicadores são mais sutis... muito mais sutis.

A legislação exige, por exemplo, que as garagens dos prédios tenham um sinal sonoro para avisar aos pedestres de que um carro está saindo. Parece uma medida para proteger os pedestres, mas não é. É, na verdade, uma medida para impedir que os pedestres atrapalhem a livre movimentação dos automóveis e para proteger os motoristas do inconveniente de atropelarem algum pedestre, sujando assim seus para-choques com sangue. Se fosse uma medida para proteger os pedestres, o sinal sonoro seria dentro dos carros, na forma de uma voz dizendo: "Cuidado com os pedestres. Saia devagar de sua garagem e com atenção."

Nessas pequenas coisas podemos perceber o verdadeiro enfoque da sociedade em que vivemos, que é completamente organizada para proteger os direitos dos que possuem algo contra aqueles que nada têm.


quinta-feira, 17 de julho de 2008

Cuidado que a pontaria deles vai melhorar

A PM carioca conseguiu acertar mais uma criança. Dessa vez uma menina de quatro anos. Depois eles dizem que não têm boa pontaria. Me parece que é o contrário, já que crianças são menores que adultos e mais difíceis de acertar.

Mas eles não ficaram só nisso. Mataram também o pai dela.

Claro que ninguém está se importando a mínima com isso. Crianças não pagam impostos e com menos de 16 também não votam nas eleições. Por isso os governos (Federal, Estadual e Municipal) não estão nem aí para elas.

Mas nós, que somos pais, temos boas razões para temer essa guerra entre PMs e crianças. Afinal, não é uma guerra das mais justas, já que só um lado usa armas.

Mataram também um rapaz que aparentava dirigir embriagado, inventando assim uma nova pena capital: pena de morte para bêbados. Depois dizem que a PM é composta por gente burra e sem imaginação. Que absurdo!!! Se eles me pegam na rua numa sexta-feira depois do trabalho, vão organizar até um pelotão de fuzilamento para mim.

E a coisa vai piorar, pois o BOPE (órgão imortalizado pelo filme "Tropa de Elite") anunciou que vai dar cursos de tiro para a tropa regular. Com isso nossos valentes policiais vão ter mais capacidade de acertar criancinhas. Dentro em breve estarão conseguindo acertar o olho de um bebê a mais de cem metros. Tremei, crianças cariocas!

Mas para a felicidade dos cidadãos, dois PMs foram mortos noite passada. Isso significa que há dois potenciais assassinos de crianças a menos na nossa cidade essa manhã. Bem que ao sair de casa senti que o ar estava mais leve...

Sempre fui contrário ao tráfico de drogas, mas depois que a PM começou a matar criancinhas, começo a pensar nos traficantes como nossos intrépidos paladinos, que matam quem mata nossos filhos.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Pena de morte para as vítimas de assaltos

A PM carioca inaugurou uma nova modalidade de punição: a pena de morte para vítimas de assaltos.

Os policiais não têm mais qualquer preocupação com os alvos e chegam matando todo mundo, assaltantes e assaltados.

Antigamente, no caso de um assalto, esperava-se ansiosamente que a polícia aparecesse e impedisse a realização do mesmo. Hoje, se isso acontecer, é morte certa para a vítima.

Essa não foi, aliás, a única coisa que mudou. Quando eu era criança, meus pais me diziam que se algo acontecesse comigo na rua eu devia procurar o primeiro policial por perto e falar com ele. Hoje em dia eu digo aos meus filhos que, haja o que houver, fiquem longe dos policiais.

Costumo dizer também que prefiro ser abordado por assaltantes do que por policiais. É mais seguro. Os assaltantes algumas vezes matam de ousados que são, mas os policiais tem (ou pensam que tem) autorização para matar. E estão usando essa autorização bastante ultimamente, contra adultos e até contra crianças.

Triste situação a da população carioca, que tem de temer até quem a devia proteger.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Qual o problema em ser menino e chamar-se João no RJ?

Quando o garoto João Hélio Fernandes foi arrastado do lado de fora de um carro pelas ruas do Rio de Janeiro por um bando de assaltantes que queriam roubar o carro de sua mãe, falou-se muito no elevado nível de crueldade dos criminosos.

Agora o garoto João Roberto Amaral é assassinado por policiais, e vamos falar o quê?

Não se esta mais discutindo a fúria de drogados que querem roubar carros para trocar por drogas nos morros, mas sim o despreparo, o descaso ou a estupidez da Polícia Militar, que usa a nós cidadãos como alvos, quando deveria nos proteger.

O Secretário de (in)Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, está inaugurando hoje, no mesmo dia do enterro de João Roberto, a Universidade da Polícia do Rio, um centro de qualificação de policiais.

Segundo o site de notícias Folha on-Line: "Ontem, o secretário chamou de 'infeliz coincidência' a inauguração do centro para treinar melhor policiais no dia seguinte a um episódio que, segundo ele, revelou a falta de preparo de dois policiais militares. O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), também participará da cerimônia."

E isso é tudo. "Infeliz coincidência"... Eu não classificaria a coisa assim. Prefiro pensar que é uma amarga ironia, uma "crônica da morte anunciada".

Que a PM é mal preparada, todos sabemos. Que a PM ganha mal, todos sabemos. Que os PMs acabam vivendo nos morros, perto dos traficantes que têm de combater e que acabam se corrompendo ou morrendo, todos sabemos. Que a PM tem corruptos, sádicos e criminosos, todos sabemos.

O que nós não sabíamos era que José Mariano Beltrame e Sérgio Cabral tomarem uns drinques numa cerimônia de inauguração iria resolver o problema. Se eu soubesse, já teria mandado uma garrafa para os dois há muito tempo!

É por essas coisas que não se verifica uma evolução na direção da solução dos problemas. As medidas são apenas de fachada. Inaugura-se muito, mas faz-se pouco. Fala-se muito, mas nada de concreto é feito.

Eu nunca fui um grande defensor da pena de morte, mas agora sou. Se os vagabundos que mataram João Hélio já tivessem sido executados, esses policiais teriam mais cuidado com a pontaria.

Em meio a tudo isso me pergunto: por que estão declarando guerra às nossas crianças?

Os animais irracionais protegem suas crias. Será que somos tão piores assim, que fazemos das nossas crianças alvos de fuzis, sacos atirados dos prédios ou as arrastamos pelas ruas?

Pior: Por que permitimos que façam tais coisas com elas sem retaliação?

Nenhum dos meus filhos chama-se João. Também nenhum mora no RJ. Mas se um deles fosse morto por assaltantes drogados ou policiais idiotas, eu não iria chorar na frente das câmaras ou fazer manifestações de protesto. Eu mataria os assassinos na primeira oportunidade!

Só assim os dois lados da criminalidade carioca, assaltantes e policiais, iriam saber que não podem matar crianças impunemente.