Os vagões especiais para mulheres chamaram a minha atenção desde o momento em que foram implantados. Algo neles me incomodava e com certeza não era o fato de não poder assediar jovens indefesas durante as viagens. Finalmente descobri o que era, e de uma forma bem indireta.
Numa das comunidades que freqüento no Orkut havia um casal de namorados. Mesmo morando em cidades diferentes, pareciam muito felizes e ajustados. Falavam em casamento. Falavam em amor. Essa semana o namoro acabou de forma abrupta. Ela descobriu que ele estava namorando outra pessoa da comunidade secretamente. Ao descobrir isso, pediu ao dono da comunidade que expulsasse os “adúlteros”, alegando que não se sentiria bem ao deparar com eles na comunidade após um fato tão desagradável. O pedido foi deferido e os dois foram expulsos.
Não vou questionar a dor de uma traição desse tipo. Dói mesmo. E é para doer. Se não doer, é sinal de que toda a sensibilidade humana foi perdida. O que questiono é a necessidade de proteção.
Nasci nos anos sessenta, em meio ao apogeu do Movimento Feminista. E parece que o espírito de época me afetou pois, enquanto homem, sou absolutamente feminista. Acredito sinceramente que as mulheres são iguais e têm os mesmos direitos que nós, em todos os sentidos.
É justamente por ser feminista, por acreditar nessa igualdade, que os vagões especiais para mulheres me incomodam tanto. Se você precisa de proteção contra alguém, está admitindo que não é igual, mas sim inferior.
Assim como as mulheres, também não gosto do contato com um monte de marmanjos. Mas não vou pedir que o metrô crie um “carro especial para homens que não gostam de se esfregar em outros homens”. E não vou fazer isso justamente porque sou igual a esses homens e presumo que a maioria deles também não gosta do meu contato, que é apenas mais uma contingência desagradável da vida nos grandes centros urbanos.
Da mesma forma que os vagões para mulheres, também as cotas para afro-descendentes nas universidades me incomodam. Acho tais cotas racistas. Não sou racista, por isso recuso-me a achar que os afro-descendentes são inferiores e que precisam de proteção especial para atingir a escolaridade superior.
Ao invés de gastar tempo nessas medidas paliativas, a sociedade brasileira deveria ocupar-se em garantir um ensino público de melhor qualidade, pois isso criaria oportunidades iguais para todos. A grande discriminação na nossa sociedade não é a racial, mas a econômica. E se os afro-descendentes constituem uma maioria entre os menos favorecidos economicamente, devemos resolver, isso sim, o problema da distribuição desigual de oportunidades de crescimento.
Fui contra a expulsão do casal. Não porque apoie a atitude desleal deles, mas porque acho que a jovem que foi traída cresceria, amadureceria melhor, se tivesse a oportunidade de confrontar seus traidores e mostrar, de cabeça erguida, que foi ela quem saiu ganhando. Afinal de contas ela livrou-se de um namorado desleal e de uma falsa amiga. Que lucro pode ser maior que esse?
Não podemos proteger as pessoas da vida eternamente. E quando tentamos fazer isso geramos pessoas fracas.
Sou pai de três meninos. Tempos atrás um deles, o mais velho, chegou em minha casa chorando porque havia levado uma surra de um menino maior na escola. Perguntei a ele o que ele queria que eu fizesse. Ele disse que queria que eu fosse lá e batesse no menino. Perguntei então se ele achava justo que um menino maior batesse em um menor, como o colega havia feito com ele. “Claro que não”, respondeu meu filho. “Então”, perguntei a ele, “porque me pede para cometer uma injustiça ainda maior? Afinal de contas, eu sou maior que o menino que te bateu, mais forte e mais velho.” Em princípio meu filho ficou chocado e me perguntou se eu não ia fazer nada. Eu fiz. Comecei a ensiná-lo a defender-se.
Não quero que meus filhos dependam de mim. Não os quero fracos, pois vivemos em uma selva onde o fraco é alimento para o forte e o forte para o mais forte ainda.
Quero que meus filhos saibam que são iguais a qualquer outra pessoa. Nem melhores, nem piores. E que não devem sair por aí impondo sua vontade com base na força, mas que não devem aceitar que qualquer outra pessoa faça isso com eles.
Por isso deixo meu conselho para as mulheres e para os afro-descendentes: Se vocês querem realmente conquistar a merecida igualdade, não se escondam atrás da proteção social, do paternalismo. Quem os proteger vai sempre achar que são inferiores, justamente por necessitarem de proteção.
Vivemos num mundo cruel, é verdade. E para viver nesse mundo, tive de ficar um tanto cruel. Sou favorável a desenvolver a força (não confundir com violência), não a proteger a fraqueza.
Sou um evolucionista convicto e sei que melhores ratoeiras só servem para gerar ratos melhores. Creio que a opressão dos homens contra as mulheres só servirá para gerar mulheres melhores, mais inteligentes, mais espertas, mais capazes de se defenderem. Da mesma forma, a opressão dos brancos sobre os negros acabará por desenvolver nestes a força necessária para mudar o quadro social. Ambas as coisas já vêm acontecendo, felizmente. E não é através da proteção social, mas sim da luta, do esforço.
O que vou dizer pode até parecer absurdo, mas é uma semente a ser plantada no pensamento dos que lerem esse texto.
Os vagões especiais são uma tentativa da sociedade de mostrar para as mulheres que elas são frágeis e necessitam de proteção, sendo portanto inferiores. Não é uma reação de proteção, mas sim uma maneira de minar a evolução delas, que tem incomodado muitos homens inseguros.
As cotas não são um favorecimento, mas sim uma maneira de mostrar aos negros que eles são inferiores, minando assim a brilhante luta pela consciência social que eles vêm desenvolvendo e que tem incomodado muito os brancos inseguros.
Pensem nisso. Vocês verão que faz sentido!
Numa das comunidades que freqüento no Orkut havia um casal de namorados. Mesmo morando em cidades diferentes, pareciam muito felizes e ajustados. Falavam em casamento. Falavam em amor. Essa semana o namoro acabou de forma abrupta. Ela descobriu que ele estava namorando outra pessoa da comunidade secretamente. Ao descobrir isso, pediu ao dono da comunidade que expulsasse os “adúlteros”, alegando que não se sentiria bem ao deparar com eles na comunidade após um fato tão desagradável. O pedido foi deferido e os dois foram expulsos.
Não vou questionar a dor de uma traição desse tipo. Dói mesmo. E é para doer. Se não doer, é sinal de que toda a sensibilidade humana foi perdida. O que questiono é a necessidade de proteção.
Nasci nos anos sessenta, em meio ao apogeu do Movimento Feminista. E parece que o espírito de época me afetou pois, enquanto homem, sou absolutamente feminista. Acredito sinceramente que as mulheres são iguais e têm os mesmos direitos que nós, em todos os sentidos.
É justamente por ser feminista, por acreditar nessa igualdade, que os vagões especiais para mulheres me incomodam tanto. Se você precisa de proteção contra alguém, está admitindo que não é igual, mas sim inferior.
Assim como as mulheres, também não gosto do contato com um monte de marmanjos. Mas não vou pedir que o metrô crie um “carro especial para homens que não gostam de se esfregar em outros homens”. E não vou fazer isso justamente porque sou igual a esses homens e presumo que a maioria deles também não gosta do meu contato, que é apenas mais uma contingência desagradável da vida nos grandes centros urbanos.
Da mesma forma que os vagões para mulheres, também as cotas para afro-descendentes nas universidades me incomodam. Acho tais cotas racistas. Não sou racista, por isso recuso-me a achar que os afro-descendentes são inferiores e que precisam de proteção especial para atingir a escolaridade superior.
Ao invés de gastar tempo nessas medidas paliativas, a sociedade brasileira deveria ocupar-se em garantir um ensino público de melhor qualidade, pois isso criaria oportunidades iguais para todos. A grande discriminação na nossa sociedade não é a racial, mas a econômica. E se os afro-descendentes constituem uma maioria entre os menos favorecidos economicamente, devemos resolver, isso sim, o problema da distribuição desigual de oportunidades de crescimento.
Fui contra a expulsão do casal. Não porque apoie a atitude desleal deles, mas porque acho que a jovem que foi traída cresceria, amadureceria melhor, se tivesse a oportunidade de confrontar seus traidores e mostrar, de cabeça erguida, que foi ela quem saiu ganhando. Afinal de contas ela livrou-se de um namorado desleal e de uma falsa amiga. Que lucro pode ser maior que esse?
Não podemos proteger as pessoas da vida eternamente. E quando tentamos fazer isso geramos pessoas fracas.
Sou pai de três meninos. Tempos atrás um deles, o mais velho, chegou em minha casa chorando porque havia levado uma surra de um menino maior na escola. Perguntei a ele o que ele queria que eu fizesse. Ele disse que queria que eu fosse lá e batesse no menino. Perguntei então se ele achava justo que um menino maior batesse em um menor, como o colega havia feito com ele. “Claro que não”, respondeu meu filho. “Então”, perguntei a ele, “porque me pede para cometer uma injustiça ainda maior? Afinal de contas, eu sou maior que o menino que te bateu, mais forte e mais velho.” Em princípio meu filho ficou chocado e me perguntou se eu não ia fazer nada. Eu fiz. Comecei a ensiná-lo a defender-se.
Não quero que meus filhos dependam de mim. Não os quero fracos, pois vivemos em uma selva onde o fraco é alimento para o forte e o forte para o mais forte ainda.
Quero que meus filhos saibam que são iguais a qualquer outra pessoa. Nem melhores, nem piores. E que não devem sair por aí impondo sua vontade com base na força, mas que não devem aceitar que qualquer outra pessoa faça isso com eles.
Por isso deixo meu conselho para as mulheres e para os afro-descendentes: Se vocês querem realmente conquistar a merecida igualdade, não se escondam atrás da proteção social, do paternalismo. Quem os proteger vai sempre achar que são inferiores, justamente por necessitarem de proteção.
Vivemos num mundo cruel, é verdade. E para viver nesse mundo, tive de ficar um tanto cruel. Sou favorável a desenvolver a força (não confundir com violência), não a proteger a fraqueza.
Sou um evolucionista convicto e sei que melhores ratoeiras só servem para gerar ratos melhores. Creio que a opressão dos homens contra as mulheres só servirá para gerar mulheres melhores, mais inteligentes, mais espertas, mais capazes de se defenderem. Da mesma forma, a opressão dos brancos sobre os negros acabará por desenvolver nestes a força necessária para mudar o quadro social. Ambas as coisas já vêm acontecendo, felizmente. E não é através da proteção social, mas sim da luta, do esforço.
O que vou dizer pode até parecer absurdo, mas é uma semente a ser plantada no pensamento dos que lerem esse texto.
Os vagões especiais são uma tentativa da sociedade de mostrar para as mulheres que elas são frágeis e necessitam de proteção, sendo portanto inferiores. Não é uma reação de proteção, mas sim uma maneira de minar a evolução delas, que tem incomodado muitos homens inseguros.
As cotas não são um favorecimento, mas sim uma maneira de mostrar aos negros que eles são inferiores, minando assim a brilhante luta pela consciência social que eles vêm desenvolvendo e que tem incomodado muito os brancos inseguros.
Pensem nisso. Vocês verão que faz sentido!
2 comentários:
Achei suas observações excelentes, além de muito bem escritas.
São bastante claras e pertinentes, independente dos leitores concordarem (meu caso) ou não com elas.
Concordo com vc tanto em relação aos vagões exclusivos pra mulheres,quanto às cotas nas universidades,que considero um paliativo.Apenas dá a impressão de que os menos favorecidos estão tendo as mesmas oportunidades.Na verdade,dentro das universidades muitos não conseguem dar conta do curso.Mudar o ensino básico é que seria a solução.Isso sim não seria um faz de conta.
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