Sobrevivemos ao "hilário eleitoral gratuito", como tão adequadamente diz o José Simão.
Suportamos a maciça distribuição de "santinhos" de candidatos nas ruas.
Aturamos as irritantes musiquinhas de campanha, totalmente desprovidas de significado e destinadas apenas a "lavar o cérebro" do eleitorado, fixando a única coisa que realmente importa: o número do candidato. Não seu programa, não sua idéias, o seu número... é nisso que o povão vota!
Aguentamos até as propagandas do TRE, nas quais a Lavínia Vlazak irritava a todos: as mulheres, por vê-la tão bela, apesar de tão grávida; aos homens, por vê-la tão grávida e saberem que não tiveram qualquer participação nisso.
Finalmente ontem, depois de todo esse sofrimento, num verdadeiro orgasmo cívico e patriótico, nós votamos!
A analogia entre o voto e o orgasmo (o masculino, que fique bem entendido) não é tão inusitada assim. E não estou sendo grosseiro e pensando no ato de depositar algo em um orifício, pois as urnas eletrônicas acabaram com essa parte da comparação. Há outras semelhanças, porém.
Em primeiro lugar, assim como o orgasmo é o clímax do ato sexual, o voto é o clímax do ato eleitoral. É ali que a coisa acaba para o eleitor, que só pode, dali em diante, relaxar,olhar para o teto e acender um cigarro, exatamente como no velho e gasto clichê do cinema. Nada mais ele pode fazer, já que aceitou o jogo da democracia representativa. Agora o prefeito escolhido governará em seu nome, e em seu nome os vereadores eleitos farão veementes discursos sobre a importância do aumento dos próprios salários, já que essa parece ser a principal função de um vereador.
Além disso, ao orgasmo masculino segue-se um tempo de impotência, que varia com a idade, a saúde, o nível de excitação e a condição física do homem. No caso do eleitor, seja homem ou mulher, esse tempo de impotência é bem definido: dura até a próxima eleição. Até lá ele não pode fazer nada, a não ser assistir aos atos dos outros. No caso, aos atos daqueles a quem elegeu. Uma atitude muito parecida com a do homem que, após um orgasmo, liga a televisão para ver um filme pornô e excitar-se novamente. E a nossa política é, de fato, um filme pornô, onde não é difícil imaginar quem são os atores ativos e quem são os passivos, ou seja, "quem está botando em quem".
Esse período de impotência prolongado acontece porque não foi dado aos eleitores qualquer mecanismo de cobrança. Uma vez que ele tenha dado o seu voto a um candidato que prometeu isso e aquilo, o candidato eleito pode ir lá e fazer tudo ao contrário, sem que o eleitor possa fazer nada, exceto esperar o próximo período de tesão eleitoral.
A semelhança mais marcante, porém, entre o voto e o orgasmo masculino, ao meu ver, é a necessidade de verificar se a outra parte ficou satisfeita. Enquanto o orgasmo do homem deixa marcas visíveis (e pegajosas, diga-se de passagem), o da mulher é muito mais interior, menos óbvio. Por isso, qualquer homem que tenha ultrapassado o nível de um troglodita deve sempre preocupar-se em saber se satisfez ou não sua parceira.
Da mesma forma, após depositar seu voto na urna, qualquer pessoa fica curiosa para saber se sua escolha vai (ou não) satisfazer os anseios da sociedade em geral.
Acontece que a sociedade (ou melhor, aqueles que a controlam) desenvolveu mecanismos para fingir satisfação, da mesma forma que as mulheres aprenderam a fingir o orgasmo (graças aos brutamontes que não se preocupam com o prazer delas, mas que querem ter seus egos massageados, ainda que seja por uma satisfação fingida).
Enquanto uma mulher pode arranhar as costas do parceiro e simular espasmos e gemidos para mostrar um prazer que não está sentindo, os donos do poder podem fazer campanhas milionárias (com dinheiro público, é claro) para mostrar o quanto a sociedade melhorou a partir do momento e que você os escolheu nas urnas. É a forma que eles acharam para responder "sim querido" ante a clássica pergunta "foi bom para você?".
Eu sempre pensei, em relação ao sexo, que quando uma relação sexual é verdadeiramente gratificante para ambos, nenhum dos dois precisa perguntar se foi bom para o outro. Os resultados são tão óbvios que não precisam ser inquiridos ou declarados.
Similarmente, se seu voto foi bem aproveitado, as conseqüências deveriam ser óbvias. Se o prefeito e os vereadores foram bem escolhidos, a sua cidade deve melhorar. E você acabará vendo isso sem que ninguém precise afirmar o fato com grandes campanhas (pagas com o seu dinheiro).
Desconfie, portanto, se amanhã os eleitos de ontem estiverem na televisão tentando mostrar o quanto o mundo ficou melhor depois que você votou neles, ou então fazendo grandes pesquisas de opinião pública (também pagas com seus impostos), que não são mais que outra forma de perguntar: "E aí, foi bom para você?"
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