sábado, 19 de julho de 2008

Eu estava caminhando...

Eu estava caminhando pelo meio da rua...

Sim, é isso mesmo o que você acabou de ler. Como uma forma de protesto pela invasão das calçadas pelos carros, procuro andar bastante pelo meio das ruas, invadindo também o espaço urbano dos motoristas como eles descaradamente fazem como o espaço dos pedestres.

Pois bem, eu estava caminhando pelo meio de uma movimentada rua do bairro da Tijuca quando um motorista gritou "Maluco!" para mim.

Curiosamente, ele provavelmente não se considera maluco quando estaciona o seu carro sobre uma calçada, impedindo que pedestres (entre os quais crianças e pessoas de idade, sem muita agilidade)
exerçam seu direito de ir e vir em segurança sobre as calçadas.

E sabe por que ele não se considera assim? Porque ele pertence àquela privilegiada parte da população que tem carro e que pode circular com seu carro por aí. Julga-se um membro das "classes superiores" e portanto pode invadir qualquer espaço sem ser punido. É um dos "nobres modernos", com direitos feudais e hereditários sobre as vidas de todos os circunstantes. Assim, quando eu invado o espaço dele, a rua, sou maluco e estou ofendendo seus direitos. Mas quando ele invade o meu espaço, a calçada, está apenas exercendo seus poderes naturais.

Se você pensa que vivemos em uma sociedade livre, democrática e igualitária, está muito enganado(a). Vivemos numa sociedade de classes estritamente delimitadas, onde a posse de certos símbolos de status é elemento essencial para distinguir os direitos de cada um.

Nessa sociedade há vários indicadores da posição de cada um. E não estou falando das leis. supostamente elas são feitas para todos. Já foi dito que a lei proíbe igualmente que ricos e pobres durmam debaixo das pontes e roubem pão para matar a fome.

Não, os indicadores são mais sutis... muito mais sutis.

A legislação exige, por exemplo, que as garagens dos prédios tenham um sinal sonoro para avisar aos pedestres de que um carro está saindo. Parece uma medida para proteger os pedestres, mas não é. É, na verdade, uma medida para impedir que os pedestres atrapalhem a livre movimentação dos automóveis e para proteger os motoristas do inconveniente de atropelarem algum pedestre, sujando assim seus para-choques com sangue. Se fosse uma medida para proteger os pedestres, o sinal sonoro seria dentro dos carros, na forma de uma voz dizendo: "Cuidado com os pedestres. Saia devagar de sua garagem e com atenção."

Nessas pequenas coisas podemos perceber o verdadeiro enfoque da sociedade em que vivemos, que é completamente organizada para proteger os direitos dos que possuem algo contra aqueles que nada têm.


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