Acorda amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão
Que aflição!
Era a dura
Numa muito escura viatura
Minha nossa, santa criatura
Clame, chame, chame o ladrão
Chame o ladrão
-- Chico Buarque de Holanda
Contam que um célebre califa árabe, ao visitar um oásis em seus domínios, foi confrontado com a seguinte situação: um crime havia sido cometido, crime cuja pena prescrita era a morte, e três suspeitos estavam presos.
Acontece que, por mais que investigassem, não havia sido possível identificar o real culpado. A dúvida persistia e ninguém sabia o que fazer
Com a chegada do califa, apresentaram a ele a questão, e ele sentenciou: "Matem os três. Allah saberá reconhecer e premiar os inocentes. É melhor matar dois inocentes do que deixar um culpado impune."
Num país onde a impunidade tem sido sempre um problema, até nos sentimos tentados a louvar a solução dada pelo califa, mas...
Mas fora das lendas, nessa nossa vida real, os inocentes têm famílias, que sofrem ao vê-los mortos inutilmente. Além do mais, nesse nosso mundo real, não há nenhum deus para recompensar. Há apenas a obliteração da morte.
Em meio a tudo isso, a polícia carioca nos mostra a cada dia que já adotou a solução do califa. Agora, em mais um incidente, mata junto com os três ladrões de veículos, os dois reféns por eles capturados.
Não satisfeitos, mandaram que um civil, provavelmente um desses passantes que adoram ver cenas sangrentas, descesse ao rio onde o carro havia caído e buscasse as armas dos assaltantes. Segundo um porta-voz da polícia civil, eles estavam preocupados com a possibilidade da água do rio levar as armas embora. Quanta preocupação! Que profissionais conscienciosos!
Há muito tempo que venho comentando nesse blog sobre a ação da polícia, mais especificmente da PM, que vem se especializando em matar inocentes e em fazer tratos com os culpados.
Enqanto os culpados se sentem plenamente seguros no Rio, pois são protegidos pela corrupção policial, os cidadãos honestos sentem-se duplamente inseguros, pois tem de temer os bandidos sem farda e os de farda.
Acontecem que o policial, mais que ninguém, tem a certeza da impunidade. Quando preso ele sabe que seus colegas darão apoio, proteção e até facilitarão a fuga. E depois de fugir ele sabe que estará seguro com seus empregadores, no alto dos morros, dando proteção às bocas de fumo.
Essa certeza da impunidade é que faz com que, numa situação dessas, mandem alterar a cena do crime à luz do dia, diante de todos os presentes, chegando ao ponto do episódio ser filmado por um cinegrafista amador presente no local.
Nos países civilizados, onde não vigora a lei da selva, onde as vidas dos cidadãos são reputadas como valiosas, todos preservam a cena de um crime de morte. Sabe-se que a integridade da cena do crime é essencial para que os peritos possam desvendar o que aconteceu. Só os culpados têm interesse na alteração da cena de um crime.
Desafio qualquer pessoa a encontrar um policial que, além da sua arma oficial, não carregue consigo outras armas, em geral pequenos revólveres ou pistolas.
São essas armas, meu caro leitor ou leitora, que irão parar na sua mão, no caso de você ser morto pela polícia. Você será acusado de ter resistido a prisão e talvez até achem drogas no seu corpo ou no seu carro. Além de assassinado, você terá fama de criminoso(a), de assassino(a), de traficante.
Claro que essa estratégia de alterar a cena do crime não funciona sempre. Algumas vezes, como no caso do garoto de três anos assassinado por policiais na Tijuca esse ano. Os policiais em geral não estão entre as pessoas de QI mais elevado, mas são espertos o suficiente para entender que não dava para acusar o menino morto de estar armado. Ou de ser traficante. Ou de ter uma vasta ficha de antecedentes criminais.
É nesses raros casos que eles têm de contar com a outra ponta da máquina da impunidade: a justiça.
Os policiais que mataram o menino foram considerados inocentes.
Parece que ninguém percebe que isso equivale, moralmente, a dizer que o menino morto era culpado. Culpado de existir. Culpado de viver no Rio. Culpado de sair de carro com sua mãe.
Costumo dizer que tenho vergonha, em algumas horas, da minha condição humana. As ações da polícia e da justiça no Brasil, e em especial no Rio de Janeiro, sempre me fazem sentir assim.
Neste natal, faço votos que você tenha um feliz 2009. Que nesse ano você não encontre com a polícia carioca, em hipótese alguma. Que se você for assaltado, que tenha o bom senso de não chamar a polícia. Lembre-se, aqui matam as vítimas também...
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