quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O crime de vestir-se mal

Numa loja das Casas Bahia entrou um rapaz. Vinte e seis anos. Pronto para casar. Com uma criança de cinco meses para cuidar e uma família que o amava. Mas esse rapaz foi morto. Assassinado por um segurança por ter cometido um crime horrível: ele estava mal vestido!


Na nossa patética sociedade de consumo, com valores globalizados e massificados, parece que agora é crime, passível de pena de morte, não estar enquadrado nos critérios sociais de vestir-se bem.


Portanto, fiquemos atentos! Aqueles de nós que não estiverem usando sapatos, calças e bolsas de marca, poderão ser executados nas esquinas. Aqueles que não balançarem nas mãos chaves de carrões serão tidos como marginais. Afinal, não estarão contribuindo com seu consumo para dirimir a crise do setor automobilístico.

O mesmo noticiário que revelou esse absurdo, falou sobre a iminente falência da General Motors. Com essa brava crise internacional, talvez voltemos a andar de carroças. Isso não me surpreenderá nem um pouco, já que em nossas mentes parece que nem sequer saímos das cavernas.

Uma vez fui à Mesbla, comprar uma calculadora científica. Como o rapaz que foi morto, fui de bermuda e camiseta. Aproximei-me do balcão onde estavam expostas as calculadoras, mas nenhum vendedor aproximou-se de mim para oferecer seus préstimos, muito embora eu tivesse o dinheiro no bolso para comprar e pagar à vista o produto que eu queria. Naquela época, aos dezesseis anos, senti-me muito constrangido e acabei indo embora e comprando noutro lugar. Hoje percebo que tive sorte. Pelo menos não atiraram em mim!




5 comentários:

Simone disse...

Os nossos valores estão invertidos.
O que importa é o TER e não o SER... O rapaz poderia estar usando sua melhor roupa e ser um bandido, como tantos que existem em Brasília... mas ninguém duvidaria de seu caráter...

ABSURDO!

Sociedade Anti-Religião disse...

É... infelizmente, a coisa funciona assim mesmo.

Se você sair na rua com uma pick-up cabine dupla, com todos os acessórios, vai ser tratado como um rei, mesmo que tenha comprado o tal carro com o fruto do roubo, do tráfico de drogas, da exploração sexual de crianças... não importa. O que importa é que você estará exibindo seu potencial econômico, e na moral do consumo (termos contraditórios), quem consome é gente boa!

Sociedade Anti-Religião disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hamilton Luiz disse...

Dando uma de advogado do diabo...

E o segurança, era preparado? Qual o tamanho da tensão que vive hoje alguém que está na linha de frente com a banalização da violência?

Sociedade Anti-Religião disse...

Hamilton,

Entendo essa questão... o segurança é o primeiro na linha de frente se realmente há um assalto. Natural que se sinta tenso. Isso até explica o que ele fez, de certa forma... mas não torna a coisa correta.